Sociedade sociedade.

Ingrata cidade que do teu Pobre Sábio te esqueces.
Do sítio te livrou e só o esquecimento merece.
Mas lembras o rei que para a peleja te queria.
A esse dás história;
Ao outro nem sequer a memória.
É tua a cobardia.

Diz Eclesiastes 9:14-15, não eu.

A Raposa de Lã

Na agilidade da poesia
Tenho coragem de ter vergonha.

Ilusão e esconderijo.
Transformação em mito,
(já dizia ele)
O nada que é tudo.
Valho-me de ti,
Poesia - credo mutagénico!

Mas na austeridade da prosa, na seriedade do relato infalível vejo a crua decisão.

E se isto é arrependimento,
Então que o seja sempre.

A triste história do Abel que

Certo dia foi invadido de equimótica coragem,
E fez-se, de coração no peito saltando, à tal viagem.
E embebido na sensual tentação,
Não se quis poupar ao inquirir:
“Por onde devo eu ir?”
Logo, em resposta vilipendiosa, soou uma voz
Em que não se achava perdão.
E gozando da cálida inocência do rapaz em questão,
Vil resposta lhe concedeu:

“Andar perdido é a melhor orientação.”


-Eu, o Filho do Homem, vim para salvar os perdidos.
in mateus 18:11

Ó Rua


Vou tentar que a Rua não me leve. Agora não.

E se me empurrares para ti, ó Rua,

Um conselho te dou: Recua.


Vou tentar que a Rua não me leve. Hoje não.

Mesmo se tentares, ó Rua,

Digo-te que a razão, hoje, não é tua.


Vou tentar que Rua não me leve. Amanha não.

Se me vieres experimentar, ó Rua,

Sabe que a certeza de ontem hoje perdura.


Vou tentar que a Rua não me leve.


Desequilíbrio

O movimento veloz que vejo persiste em ficar.
O som ininterruptamente continuado de forma repetida perturba e não cala.

Larga-me ó oscilação constante,
Desequilíbrio exaustivo!

És máquina de café que suspira chávenas vazias;
És arrastar petulante de cadeiras;
És prato que garfo pica;
És moedas que saltam no bolso;
És cigarro incandescente que esbarra o cinzeiro;
És caneta que faz contas à mesa;
És miúdo que grita;
És calcar violento do velho sulcado pela vida;
És janela entreaberta que ginga;
És pássaro agudo que pia, pia, pia;
És vento farto de inércia e resmungas o calor que te separa de ti mesmo;
És pregão desvairado das flores descartáveis;
És semáforo que apita verde, vermelho, verde, vermelho, verde;
És carro que corre feroz.

-Quieto! (gostava eu de dizer...)

Ferino

Esbanjar: verbo que tem só
Terceira pessoa do singular.
-Não, não cabe no meu lugar!
Não, não me convém…

Anátema seja!
Oh, oportunismo sagaz
De fúria inaudita.
Gastadores: raça maldita.
Não vês tu que esbanjas?
Come desse pó que calcas e prova o que serás!
Ah! Marasmo ferino
De infinita mordomia.
Esbanjas, esbanjas, esbanjas!
Usas e malbaratas.

Abusas!

Consumir-te-ás no entulho que fazes com o que consomes.



www.chrisjordan.com

A pressa
Que vai na alma,
Essa não engana.
Mas a calma
Que da roda ritual flui,
Esgana!

É o leve adormecer do coração
Se causa é em vão.

É sem dor.
É sem odor.

É um silêncio discordante.

É furor languescente.
É um sono ardente
Que queima a cinza novamente.